Parar a Caneta Emagrecedora Faz Engordar de Novo? O Que os Estudos Mostram e Como a Nutrição Ajuda a Manter o Resultado
Uma revisão publicada no BMJ em 2026 reacendeu a dúvida de quem usa Ozempic ou Mounjaro: o peso volta quando a caneta acaba? Veja o que os estudos mostram e onde a nutrição entra.

⚠️ Aviso Educativo e Institucional: Este conteúdo tem caráter educativo e informativo. Iniciar, manter, reduzir ou interromper medicamentos como Ozempic, Wegovy (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) é uma decisão do médico prescritor. O acompanhamento nutricional não substitui a consulta médica: ele dá suporte à alimentação antes, durante e depois do tratamento.
As canetas emagrecedoras viraram parte da rotina de muita gente no Brasil, e com elas surgiu uma pergunta que hoje aparece em consultório, grupo de WhatsApp e comentário de rede social: o que acontece com o peso quando eu paro? Preço, efeitos colaterais, falta do produto na farmácia ou simplesmente a sensação de "já cheguei aonde queria" levam muitas pessoas a interromper o tratamento.
Em janeiro de 2026, uma revisão sistemática publicada no BMJ por pesquisadores da Universidade de Oxford colocou números nessa conversa, e o assunto voltou com força. Neste artigo você vai entender o que os principais estudos mostram sobre o reganho de peso depois da caneta, por que ele acontece e o que a alimentação e o treino podem fazer para proteger o resultado.
1. O que a revisão do BMJ de 2026 encontrou
A revisão reuniu 37 estudos, com 9.341 participantes adultos com sobrepeso ou obesidade que usaram medicamentos para controle de peso e foram acompanhados depois de parar. Em média, o tratamento durou 39 semanas, e o acompanhamento após a interrupção, 32 semanas.
Os principais achados:
- Depois de parar a medicação, o peso subiu em média cerca de 0,4 kg por mês.
- Os marcadores cardiometabólicos (glicemia, pressão, colesterol) que tinham melhorado durante o tratamento foram projetados para voltar ao ponto de partida em cerca de 1,4 ano.
- O reganho foi mais rápido do que após o fim de programas comportamentais de dieta e atividade física, em cerca de 0,3 kg por mês a mais, independentemente de quanto peso a pessoa tinha perdido.
Os autores não concluem que o remédio "não funciona". A conclusão é que usar esses fármacos por pouco tempo, sem uma abordagem mais ampla de manejo do peso, pede cautela. Isso conversa com algo que a medicina já repete há anos: a obesidade é uma doença crônica, e tratamento de doença crônica raramente tem data para acabar.
2. O que os ensaios clínicos com semaglutida e tirzepatida mostram
A revisão do BMJ junta vários medicamentos. Dois ensaios específicos ajudam a enxergar o que acontece com os fármacos mais usados hoje.
Semaglutida (STEP 1, extensão). Na fase principal, os participantes que usaram semaglutida 2,4 mg semanal por 68 semanas perderam em média 17,3% do peso. Depois, o medicamento e a intervenção de estilo de vida foram suspensos. Um ano mais tarde, esse grupo tinha recuperado em média 11,6 pontos percentuais do peso perdido, ou seja, cerca de dois terços do que tinham eliminado. A maior parte das melhoras cardiometabólicas também voltou em direção aos valores iniciais.
Tirzepatida (SURMOUNT-4). Todos os participantes usaram tirzepatida por 36 semanas e depois foram sorteados para continuar ou trocar para placebo. Entre a semana 36 e a 88, quem continuou perdeu mais 5,5% do peso, enquanto quem trocou para placebo recuperou 14%. Ao final, 89,5% de quem continuou mantinha pelo menos 80% do peso perdido, contra 16,6% de quem parou.
Os dois estudos apontam na mesma direção: o medicamento controla o apetite enquanto está agindo. Quando sai de cena, a fome e a saciedade tendem a voltar ao padrão anterior, e o organismo, que passou a gastar menos energia em um corpo mais leve, favorece a recuperação do peso.
3. Por que a nutrição faz diferença nessa fase
Durante o tratamento, a caneta faz parte do trabalho que normalmente caberia aos hábitos: reduz a fome, aumenta a saciedade e diminui o volume das refeições quase sem esforço. O risco é a pessoa emagrecer sem construir os hábitos que vão sustentar o peso quando o remédio sair.
Alguns pontos que o acompanhamento nutricional trabalha justamente para essa transição:
- Estrutura das refeições. Com o apetite reduzido, muita gente pula refeições ou come "o que cabe". Quando a fome volta, não existe um padrão alimentar organizado para segurá-la.
- Proteína e massa magra. Parte do peso perdido com esses medicamentos pode ser músculo, e menos músculo significa menor gasto energético. O tema está detalhado no artigo sobre como preservar a massa magra durante o uso de Ozempic e Mounjaro.
- Saciedade "de comida". Refeições com volume, fibras e proteína ajudam a substituir, em parte, a saciedade que vinha do fármaco.
- Relação com a comida. Fome emocional, beliscos e comer por ansiedade não são resolvidos pela caneta; só ficam mais silenciosos enquanto ela age.
4. O exercício como proteção: o estudo de Copenhague
Um ensaio clínico dinamarquês ajuda a entender o peso do treino na manutenção. Adultos com obesidade perderam em média 13,1 kg com uma dieta de baixa caloria de 8 semanas e, em seguida, passaram um ano em uma de quatro estratégias: exercício supervisionado, liraglutida (um GLP-1 mais antigo), os dois combinados ou placebo.
Os pesquisadores acompanharam os participantes por mais um ano depois de encerrado o tratamento. Os resultados, publicados na eClinicalMedicine em 2024:
- No ano seguinte à interrupção, quem tinha usado só liraglutida recuperou em média 6 kg a mais do que quem tinha feito só exercício supervisionado.
- Quem tinha feito a combinação de exercício e medicamento terminou com peso 5,1 kg menor e menor percentual de gordura do que quem tinha usado só o medicamento.
- O grupo do exercício manteve peso e composição corporal um ano depois de terminar o programa.
A mensagem prática: o hábito de se exercitar é o que "fica" quando o tratamento acaba. Se você ainda não treina, o guia sobre recomposição corporal, perder gordura e ganhar músculo mostra como treino de força e alimentação trabalham juntos.
5. Como se preparar, na prática
Se você usa ou já usou caneta emagrecedora, alguns pontos para conversar com sua equipe de saúde:
- Não pare por conta própria. A forma e o momento de interromper, ou de reduzir a dose, são decisões do médico prescritor.
- Use o período de tratamento para construir rotina. Horários de refeição, prato com proteína e vegetais, hidratação e um planejamento simples para fins de semana.
- Comece ou mantenha o treino de força com orientação de um profissional de educação física.
- Acompanhe composição corporal, não só a balança. Perder músculo deixa a manutenção mais difícil.
- Combine um plano para depois. Saber o que fazer quando a fome voltar é muito mais eficiente do que improvisar.
- Monitore cedo. Um pequeno ganho percebido logo no início é mais fácil de ajustar do que vários quilos acumulados.
Nenhuma dessas medidas garante que o peso não volte, e o reganho não é falta de força de vontade: é uma resposta biológica descrita em vários estudos. Mas elas aumentam as chances de manter uma parte maior do resultado. Um acompanhamento nutricional online pode ajudar a montar esse plano de forma individual, antes, durante e depois do tratamento médico.
Perguntas Frequentes sobre o Tema
Quem para o Ozempic ou o Mounjaro volta a engordar?
Na maioria dos estudos, parte importante do peso volta. Na extensão do estudo STEP 1, quem parou a semaglutida recuperou em média cerca de dois terços do peso perdido em um ano, e no SURMOUNT-4 quem trocou a tirzepatida por placebo recuperou 14% do peso. A intensidade varia de pessoa para pessoa.
Em quanto tempo o peso volta depois de parar a caneta?
A revisão publicada no BMJ em 2026 encontrou um reganho médio de cerca de 0,4 kg por mês após a interrupção dos medicamentos para controle de peso, com os marcadores cardiometabólicos projetados para voltar ao ponto de partida em cerca de 1,4 ano. São médias: cada caso depende do tratamento, dos hábitos e do acompanhamento.
Dá para parar a caneta emagrecedora sem engordar de novo?
Não existe estratégia que garanta isso, mas estudos associam o exercício regular e hábitos alimentares estruturados durante o tratamento a uma manutenção melhor depois dele. A forma de interromper ou reduzir a medicação deve ser decidida com o médico, e o nutricionista ajuda a planejar a alimentação dessa fase.
O que comer depois de parar o Ozempic?
Não existe um cardápio único. Em geral, o foco é organizar as refeições, garantir proteína suficiente, incluir alimentos ricos em fibras e com bom volume para saciedade, e ter um plano para os momentos em que a fome voltar. As quantidades devem ser individualizadas por um nutricionista.
Referências e fontes
- Weight regain after cessation of medication for weight management: systematic review and meta-analysis. BMJ, 392:e085304 (West S, Scragg J, Aveyard P et al.) (2026). DOI: 10.1136/bmj-2025-085304Ver fonte
- Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: The STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism (Wilding JPH et al.) (2022). DOI: 10.1111/dom.14725Ver fonte
- Continued Treatment With Tirzepatide for Maintenance of Weight Reduction in Adults With Obesity: The SURMOUNT-4 Randomized Clinical Trial. JAMA, 331(1):38-48 (Aronne LJ et al.) (2024). DOI: 10.1001/jama.2023.24945Ver fonte
- Healthy weight loss maintenance with exercise, GLP-1 receptor agonist, or both combined followed by one year without treatment: a post-treatment analysis of a randomised placebo-controlled trial. eClinicalMedicine (Jensen SBK et al.) (2024). DOI: 10.1016/j.eclinm.2024.102475Ver fonte
- Healthy Weight Loss Maintenance with Exercise, Liraglutide, or Both Combined. New England Journal of Medicine (Lundgren JR et al.) (2021). DOI: 10.1056/NEJMoa2028198Ver fonte
Artigos Relacionados
Perda de Massa Magra com Ozempic e Mounjaro: Como a Alimentação Ajuda a Preservar o Músculo
Remédios como Ozempic e Mounjaro emagrecem rápido, mas parte do peso perdido pode vir do músculo. Veja o que estudos recentes dizem sobre proteína, treino de força e acompanhamento nutricional.
Semaglutida em Comprimido: O Que Muda na Rotina Alimentar de Quem Trata a Obesidade
A Novo Nordisk pediu à Anvisa a aprovação do Wegovy em comprimido. Entenda o que os estudos mostram e o que essa mudança de formato altera na rotina alimentar de quem trata a obesidade.
Recomposição Corporal: Como Perder Gordura e Ganhar Músculo ao Mesmo Tempo
Perder gordura e ganhar músculo ao mesmo tempo não é mito nem promessa vazia — mas também não é para todo mundo do mesmo jeito. Veja o que a literatura mostra.